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24 de junho
Camila Frésca

 

Sintonizado com o Ano da França no Brasil, o programa desta noite nos traz três compositores que têm muito mais em comum do que o simples fato de terem nascido e/ou atuado naquele país.

Nome menos conhecido dentre eles, Antoine Reicha (1770-1836) nasceu em Praga e teve suas primeiras lições de música aos onze anos de idade. Aprendeu a tocar flauta, violino e piano, e foi amigo de Beethoven em Bonn, tendo ambos estudado composição com Christian Neefe. Aos dois foi dada a oportunidade de ter aulas com Haydn em Viena. Beethoven partiu em 1792, mas Reicha só iria viver naquela cidade em 1801. Então, por sete anos desfrutou da companhia dos dois mestres e amigos, até estabelecer-se definitivamente em Paris em 1808.
Reicha interessava-se também por filosofia e estética musical, tendo publicado tratados que se tornaram referência no século XIX. Em Paris, naturaliza-se francês (adaptando o nome original Antonín Rejcha) e inicia uma atividade didática que o consolidaria como um respeitado professor de composição, lecionando no Conservatório e tendo entre seus alunos Berlioz, Liszt, César Franck e Gounod.
Antoine Reicha foi um compositor prolífico que deixou óperas, sinfonias, concertos, música coral e especialmente música de câmara. Ficou conhecido por seus mais de 20 quintetos para flauta, oboé, clarinete, trompa e fagote, formação para a qual deu novas dimensões a partir de um estudo cuidadoso das possibilidades técnicas de cada instrumento. Escreveu também cinco quintetos para instrumento de sopro e cordas, dentre eles o Quinteto para oboé (ou clarinete) e quarteto de cordas op. 107. Tal como a maior parte de sua obra camerística, esta peça, apesar de escrita em 1829, guarda muito mais características do classicismo que do romantismo. Independente do estilo, no entanto, destaca-se por sua grande invenção melódica e bem cuidada estrutura.

Charles Gounod (1818-1893), que tomou aulas particulares com Reicha, é considerado um dos restauradores do estilo nacional francês, e é também compositor de uma geração que começa a retomar a escrita instrumental em seu país, naquele momento bastante ofuscada pela ópera comique.
Sua Petite symphonie, escrita em 1885 para flauta, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 trompas e 2 fagotes é um tributo à tradição francesa de instrumentos de sopro, ao mesmo tempo em que traz ecos das serenatas de Mozart. Foi escrita a pedido de seu amigo Paul Taffanel, influente professor e diretor do conjunto “La trompette”. Seu primeiro e último movimento são escritos em forma sonata, e o segundo traz uma bela melodia solo para flauta, especialmente escrita para Taffanel. A obra segue, em linhas gerais, o formato da sinfonia clássica de quatro movimentos.

Gounod influenciaria grandemente os compositores que surgiriam em seguida, entre eles César Franck (1822-1890). Figura fundamental na história da música francesa, Franck, tal como Reicha, não nasceu naquele país mas sim na Bélgica, naturalizando-se posteriormente. Ficou muitos anos longe da composição, mas a partir de 1870, quando é nomeado professor de órgão do Conservatório de Paris, passa a escrever grandes obras de uma maturidade tardia e extremamente fecunda.
É desse período uma das mais famosas e belas, o Quinteto para piano e cordas em fá menor, concluído em 1880. Peça pela qual Proust tinha enorme admiração, o quinteto foi dedicado a seu colega Camille Saint-Saëns e explora a justaposição de acordes, além de trazer uma emotividade e sensualidade intrínsecas.

 


Camila Frésca é mestre em musicologia pela USP
jornalista da Revista Concerto