HOME

Notas de Programa

Apresentação 19 de junho 20 de junho 21 de junho 22 de junho 23 de junho 23 de junho - TATUÍ 24 de junho 25 de junho 26 de junho 27 de junho - Recreio Musical 27 de junho

21 de junho
Jorge Coli


    Os anos de 1920, durante os quais Villa-Lobos faz longas permanências em Paris, provocaram no compositor, buscas de vanguarda e de clima nacional. É quando compõe os Choros.  São anos de apogeu e maturidade. Ele adquirira um lugar no cenário internacional, dominava plenamente seus meios técnicos de escrita musical.
Os Dois choros (bis) para violino e violoncelo são uma pequena e maravilhosa coda para o ciclo integral dos Choros. Foram previstos com o papel de bis, no caso de os Choros serem executados em sua totalidade, como o compositor sonhava.
Formam uma pequena peça em dois movimentos. No primeiro, o ritmo curioso abre-se para uma passagem central de devaneio e melancolia. O segundo se inicia com belos e estranhos acordes, avança num improviso sem ritmo, dando a impressão de um recitativo que fala de mundos desconhecidos. O fugato, animado, o pizzicato do violoncelo, a eloqüência do final, todos os elementos das duas pequenas peças são feitos com a audácia e a elegância do espírito avant-garde daqueles anos.
Não se resumem a isso, porém: demonstram uma invenção surpreendente e um modo único de tratar os dois instrumentos, em combinação inusitada, conferindo a ela uma amplidão sonora que parece ir muito além de apenas um violino e um violoncelo.
 

    Na primavera de 1782, Mozart torna-se amigo do barão Van Swieten, que lhe faz descobrir a obra de Haendel e de Johann Sebastian Bach. O contato com essa música elevada e complexa é uma revelação para Mozart, e seu impacto sobre sua obra é assinalado em suas cartas e na análise das obras que compõe nesse período.
    Mozart emprega então o contraponto com frequência, e multiplica a escrita de fugas. É uma verdadeira revolução, como o disseram vários musicólogos, que significou uma modificação inesperada e radical no espírito do compositor.
    Mozart passa não apenas a compor no espírito desses mestres mais antigos. Trabalha em adaptações (como fez com o Messias, de Haendel), e transcrições, como de cinco fugas em quatro partes do Cravo bem temperado, de Bach, para quarteto de cordas.
    Em pleno período de sua maturidade musical, Mozart compõe Uma musiquinha noturna, obra deliciosa, a mais popular de seu autor e de toda a história da música. Escreveu-a em Viena, em agosto de 1787. Tem “prontidão e graça aéreas”, como notaram os grandes especialistas Wyzewa e Saint-Foix, e um bom humor feito de elegância inimitável, que justificam plenamente seu sucesso junto ao público.
 

    O Octeto para sopros, op. 103, de 1792, foi escrito pelo jovem Beethoven, de 22 anos. Nesse momento de sua vida, estava em contato com Haydn e Salieri, era muito admirado como pianista e improvisador. Época feliz, que se desfaria a partir de 1802, com a surdez que o acometera.
    O espírito desse Octeto está imerso na atmosfera elegante do século 18, e corresponde perfeitamente a esse momento de tranquilidade que Beethoven atravessava.
    Depois do firme e aristocrático primeiro movimento, ao mesmo tempo nobre e amável, o Andante introduz uma elegia elevada; o Minueto, talvez a passagem mais original da obra, não é pensado como uma dança, mas como uma alegre construção sonora; o presto tem algo de final de ópera bufa, vivo, divertido, enérgico.
    Trata-se de uma obra que não corresponde em nada ao trágico personagem do qual a história guardou a imagem, o compositor atormentado, doente, surdo, angustiado. Ao contrário, graças a ela, descobrimos um Beethoven que escreve com segurança desenvolta e juvenil, evitando todo drama profundo.
 

 
Jorge Coli é professor da Unicamp na área de história da arte e da cultura