20 de junho
Jorge Coli
Na sequência de Smetana, Dvorak e Janacek, Martinu é o quarto grande compositor da música tcheca. Sua característica mais evidente é a compulsão obsessiva pela escrita musical. Foi expulso do Conservatório de Praga, onde estudava violino e órgão por “incorrigível negligência”. O caso é que, ótimo intérprete, ele se recusava a gastar tempo com instrumentos, preferindo rabiscar suas próprias notas nos pentagramas.
Mesmo em condições muito difíceis, mesmo quando fugia pela França e para os Estados Unidos, no início da Segunda Guerra Mundial, e foi obrigado a dormir em mais de doze estações de trem de cidades diferentes, não parou de escrever.
Teve uma formação em grande parte francesa. Até os anos de 1930, foi marcado por Debussy e Roussel. Depois, há uma presença forte de referências ao folclore tcheco. Mas há, também, o amor pelo madrigal inglês da renascença, com seu contraponto cantante e poli-melódico. Os “Quatre Madrigaux” H. 266, para oboé, clarinete e fagote são uma suprema homenagem a essa tradição. Compostos em 1937, são ricos de estimulante aspereza, que cria uma atmosfera perturbadora.
Brahms escreveu duas esplêndidas obras-primas para violoncelo e piano, duas sonatas. Vinte anos as separam: a primeira data de 1865, a segunda de 1886.
A de número 1 é calorosa. O compositor, então com pouco mais de 30 anos, escreveu-a para seu amigo, o violoncelista Josef Gänsbacher. Ela exige do intérprete sonoridades amplas, ricas. Entrega-se então ao ouvinte no esplendor de suas cores. Recusa o andamento lento de tradição. Foi chamada de “Sonata Pastoral”, por causa de sua atmosfera sem peso e sem ênfase.
O Allegro non troppo inicial emprega, sem digressões nem floreios, três temas muito distintos. Aparecem sempre, no desenvolvimento e na reexposição, seguindo a ordem em que foram ouvidos pela primeira vez. Primeiro, a melodia de bela plasticidade, soberana; depois outra, tensa, agitada, rítmica; enfim, a terceira, terna, feminina, misteriosa.
O Allegreto quasi minuetto é gracioso, embora traga em si um pouco de melancolia e bastante lirismo. O Allegro final, no qual Brahms faz soar uma lembrança da Oferenda Musical de Bach, incorpora a forma polifônica, mas apresenta uma vivacidade cheia de fantasia que faz brilhar o piano.
A partir da Segunda Guerra Mundial, Heitor Villa-Lobos se aproxima dos Estados Unidos, com longas estadas naquele país. Sua música, que se caracterizara como portadora de brasilidade, aderindo ao nacionalismo que impera sob Getúlio Vargas, afasta-se bastante dessas pretensões e se entrega mais a si mesma: talvez seja a fase mais alta do compositor. O Trio em Dó Maior, de 1945, brilha então como grande obra-prima.
O Trio foi dedicado à Coolidge Foundation, que encomendara a obra, e estreado em Washington pelo The Albeniere Trio. O primeiro tema, exposto pela viola no início do primeiro movimento, estabelece o clima misterioso, interrogativo, da obra. As melodias se entrecruzam, misturam-se, na afinidade de timbre que possuem os instrumentos da mesma família. O segundo movimento começa por uma respiração rouca na viola e violoncelo, desenha a bela e melancólica trajetória do violino, logo retomado pela viola. Movimento de poesia elevada, metafísica, o Andante avança, noturno, terminando pelo canto do violoncelo num último pianíssimo confidencial.
O Scherzo, rico de invenções inesperadas e enérgicas, que deveriam conduzir a uma alegria plena, mantém, contudo, uma curiosa inquietação, obsessiva, sobre um fundo sombrio e algo velado.
Jorge Coli é professor na área de história da arte e da cultura da Unicamp
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