19 de junho
André Mehmari
Heitor Villa-Lobos inicia suas Bachianas Brasileiras 6 na nostálgica tonalidade de ré menor (a preferida de Nelson Cavaquinho para seus sambas tristes), fazendo referência direta aos seus contemporâneos chorões. No primeiro dos dois movimentos, Aria (Choro), destaca-se o virtuoso solo de flauta que tem o suporte do fagote, fazendo as vezes do violão de sete cordas, no regional típico. Teria Villa-Lobos se inspirado na figura de Joaquim Callado (1848-1880), grande flautista tido como o ‘inventor’ do gênero choro? A Fantasia que segue é um contraponto mais livre onde o papel dos dois solistas se apresenta mais equilibrado, explorando bem as possibilidades de articulação que as madeiras oferecem.
A nobre combinação clarinete-viola-piano surge pela primeira vez na história pelas mãos de Mozart. Kegelstatt era o local onde se praticava uma variedade do boliche, mas para Wolfgang era também lugar para se compor música: ele compôs, alí mesmo, entre uma jogada e outra, seus 12 duos para basset horns. Anotou na partitura e tudo. Não se sabe ao certo se o Kegelstatt Trio K498 nasceu nas mesmas circunstâncias, mas é certo que foi publicado em 1788 e estreado pelo compositor à viola (seu instrumento preferido), Stadler à clarinete (para quem escreveu também o concerto) e sua aluna Franziska Jacquin ao piano, provavelmente na casa da família dela. Curiosamente, na publicação, a clarineta, instrumento novo e exótico para a época, consta como alternativa ao já consolidado e popular violino. O inusitado Rondó final em sete partes (AB–AC–AD–A) chama especial atenção e explicaria a denominação no plural, em francês, Rondeaux.
É bem propício falar da gênese da História do Soldado em meio à grave crise atual. Em 1917, após sacudir as bases da música ocidental com a trilogia de balés ‘russa’, de O Pássaro de Fogo, Petrouchka e a Sagração da Primavera, Stravinsky se vê diante das misérias da Primeira Grande Guerra. A ideia de compor algo para um grupo instrumental pequeno e móvel, um teatro ambulante, torna-se recorrente para o compositor. Ao mesmo tempo em que ele finaliza a composição de seu importante balé Les Noces, também para a compania de Diaghilev.
Originalmente, o argumento para O Soldado vem do folclorista russo Alexander Afanassyev, adaptado por C.F. Ramuz, amigo do compositor e que também colabora nos textos. A instrumentação é composta pelo arrabecado violino solista, clarinete, fagote, percussão, trompete, trombone e contrabaixo. O gestual musical da composição é extremamente original, angular, e parece encontrar ecos somente no folclore do leste europeu e nas obras da mesma época do mestre russo, como a monumental Sinfonia para Instrumentos de Sopros e as curtas, mas interessantíssimas, Três Peças para Clarinete Solo, dedicadas exatamente ao patrocinador do Soldat, Werner Reinhart, que era também clarinetista amador. Há também divertidas referências a toda sorte de música de baixo pedigree, como a marcha militar, a valsinha de realejo, o ragtime, o tango e as danças de cabaré. Inseridos na obra estão dois corales que são verdadeiras antíteses dos corais de Bach: seriam os primeiros, rústicos corais profanos, até pelos extensivos e propositais ‘erros’ de contraponto como paralelismos entre vozes, assimetrias formais e instrumentação desbalanceada. Corais deliciosamente tortos e cubistas. O senso de humor de Stravinsky é infalível e agudo a cada compasso. Segundo ele, no cristianismo russo, a figura do diabo tem muitas caras. Poderíamos atribuir uma delas aos radicais neoliberais de hoje, desencadeadores da avassaladora crise econômica?
André Mehmari é compositor, pianista e arranjador
|