25 de junho
André Mehmari
O altíssimo grau de originalidade da Sonata para Flauta, Viola e Harpa de Claude Debussy é uma dessas coisas difíceis de se explicar na vida: é um verdadeiro milagre estético. Embora aqui o elemento timbrístico seja também material para a composição, a originalidade dela não se limita à já bastante exótica combinação instrumental. A obra é permeada por um conjunto de temas repletos de magia e encantamento: o fauno amadureceu e convidou dois novos parceiros para sua nova tarde de fantasia e deleite. O registro grave e aveludado da flauta somado ao tom reflexivo da viola e amalgamado pela harpa, é fascínio puro. Ouvimos um desfile de recursos musicais que se tornaram marcas registradas de Debussy, como escalas de tons inteiros, escalas pentatônicas, harmônicos, modalismos… Poucas obras em todo repertório camerístico, possuem tantas características estimulantes e intrigantes quanto esta sonata composta em 1915, fase final do compositor.
Numa outra esfera de expressão encontra-se a Introdução e Allegro (1906) para quarteto de cordas, clarinete, flauta e harpa, de Maurice Ravel. Música muito fragrante, agradável e amável em toda sua duração, traz em seu corpo a sensualidade e leveza das harmonias tipicamente francesas - o que se nota pelos abundantes acordes com sétimas maiores, tão característicos do estilo dito “impressionista”. Mas o gênio orquestrador de Ravel nos proporciona através de um pequeno grupo de câmara, amplo colorido sonoro, com toda finesse da palheta tímbrica do autor, apelidado por Stravinsky de o ‘relojoeiro suiço da orquestração’. No estilo, a obra se relaciona com o célebre quarteto de cordas em Sol Menor, embora seja menos densa e complexa que este.
Com delicioso sabor tipicamente neoclássico, o ‘Quatuor’ (1928) para madeiras de Heitor Villa-Lobos é marcado pela transparência das texturas e timbres, pronunciados com clareza e viva articulação rítmica. Escrita no tradicional formato rápido-lento-rápido, a obra lembra muito o gestual do Octeto para sopros de Stravinsky, especialmente o terceiro movimento, Molto Vivace, que conclui a obra em tom assertivo e bem humorado.
Nicolò Paganini (1782-1840) consagrou-se como um dos maiores violinistas da história da música. Grande inovador da técnica violinística, era famoso por assombrar suas plateias com virtuosismo extremo, temperado com brilhante improvisação, característica do músico romântico, que infelizmente se perderia aos poucos nas gerações posteriores. Por volta dos 19 anos de idade, interrompeu temporariamente a bem sucedida carreira de concertista e se dedicou ao estudo do violão, produzindo nesta época uma grande variedade de obras que combinam as cordas raspadas do violino com as cordas dedilhadas ou beliscadas do violão. Este verdadeiro banquete musical, se encerra com o Nono (de quinze) Quarteto com violão de Paganini.
André Mehmari é compositor, pianista e arranjador |