26 de junho
Fábio Zanon
José Maurício Nunes Garcia: Abertura em ré
Nosso primeiro grande compositor, o Padre José Maurício, deixou ao menos quatro obras orquestrais profanas, dentre as quais esta Abertura em Ré, provavelmente escrita na primeira década do século 19. Nada se sabe das circunstâncias em que foi escrita. Ela é um amálgama curioso: ao temperar a simplicidade marcial do estilo italiano com pitadas de Haydn (especialmente na introdução) e Mozart, ele produz um sabor bem parecido ao do jovem Schubert. Ela chegou até nós através de uma cópia feita por Manuel José Gomes, pai de Carlos Gomes, o que sugere um fio condutor entre nossos maiores compositores.
Villa-Lobos: Concerto para violão e pequena orquestra
Este concerto é a palavra final de uma trajetória que mudou para sempre a história do violão. Ele foi escrito em 1951 e dedicado e Andrés Segovia, que era um grande amigo, mas não apreciava a música de Villa-Lobos. Inicialmente, a obra foi intitulada Fantasia Concertante, mas Segovia exigiu que Villa escrevesse uma cadência e a chamasse de Concerto. Esta cadência é um movimento independente que faz um apanhado geral da obra. Parcialmente satisfeito, Segovia estreou-o em Houston. Villa-Lobos aprovava o uso de microfone, mas Segovia se recusava a usá-lo e nunca mais o tocou. Isso não impediu que o concerto se tornasse um dos pilares do repertório de violão, graças à sua forma compacta, aos temas de brasilidade sóbria e à arrojada escrita para o solista.
Copland: Appalachian Spring
A suíte sinfônica Appalachian Spring gera para o público americano os mesmos sentimentos nacionalistas que as Bachianas de Villa-Lobos no Brasil. Sua maneira de mesclar melodias devocionais com brilho instrumental teve um impacto profundo e é imitada até hoje na música de cinema.
Copland pensava nele somente como um Ballet for Martha, para 13 instrumentos, já que foi uma encomenda da coreógrafa Martha Graham. O enredo retrata uma cerimônia de casamento de pioneiros no interior da Pensilvânia. O título foi escolhido por Martha Graham, e a estréia do balé em 1944 foi um enorme sucesso. Mais tarde, a editora de Copland publicou esta versão, que mantém a instrumentação original de câmara e o formato da suíte sinfônica.
Mozart: Concerto para flauta e harpa
Esta é uma das obras mais amadas de Mozart. Mesmo o compositor, que não gostava nem de flauta nem de harpa, tinha carinho por esse concerto.
Aos 22 anos, Mozart fez um périplo pela Europa em busca de um emprego fixo. Além de não conseguir o que queria, sua mãe faleceu em Paris durante a viagem. Entretanto, ele fez ótimos contatos profissionais por onde passou, e este concerto foi uma encomenda francesa (que não foi paga, aliás) do Conde de Guînes, que tocava flauta, e de sua filha, que era harpista. Aparentemente, Mozart escreveu para os dois por pura preguiça de escrever uma obra para cada um deles. É Mozart com sua habitual inventividade e graça árcade, bem ao gosto francês, cuja misteriosa perfeição comove e intriga.
Fábio Zanon é violonista e professor da Royal Academy de Londres
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