22 de junho
Fábio Zanon
Villa-Lobos: Três Prelúdios para violão
Compostos no Rio em 1940, os 5 Prelúdios de Villa-Lobos foram dedicados à sua segunda mulher. Eles foram as primeiras peças de Villa a entrar para o repertório de todos os concertistas e são, hoje, as obras de violão mais tocadas em todo o mundo, gravadas milhares de vezes, e em grande parte responsáveis pela presença internacional do compositor.
Por quê? Bem, primeiro porque são idéias de sábia simplicidade, melodismo marcante e escrita instrumental infalível. Segundo, porque formam uma espécie de microcosmo sociológico brasileiro. Cada um deles é o retrato de um topos local: o malandro no no.2, o índio no no.4 e o sertanejo no no.1. Neles, Villa-Lobos faz o violão soar pleno e orgânico.
Villa-Lobos: Trio
Manuel Bandeira escreveu em 1924: “Quem chega de Paris, espera-se que venha cheio de Paris. Villa-Lobos chegou de lá cheio de Villa-Lobos.”
Este Trio é datado de 1921, entretanto foi estreado em Paris em abril de 1924. Isso tem causado muita especulação sobre a real data de composição. Em que isso interessa? Bem, este trio é a obra mais stravinskyana de Villa, em seu politonalismo áspero, na expressão telúrica, na complexidade dos deslocamentos rítmicos e numa maneira de construir que usa incisos rítmicos, detalhadamente esculpidos, quase como se fossem peças de lego de tamanhos e formatos diferentes, sobre os quais flutua uma escrita melódica ornamental e algo orientalista.
Se foi escrito em 1921, ou Villa já tinha assimilado Stravinsky antes de ir à Europa, ou ele chegou a um resultado correlato de forma totalmente independente. A meu ver, mesmo se escrita em 1923 ou 24, a fisionomia da peça é tão Villa-Lobos ele-mesmo, que a disputa de primazia torna-se fútil. Com ou sem Stravinsky, este trio é uma das obras-primas do repertório camerístico do século XX.
Camillo Sivori: Fantasia sobre a ópera “Un Ballo in Maschera” de Verdi
O único aluno de violino que Paganini teve em toda sua vida foi o menino Camillo Sivori, cujo talento igualmente sobre-humano abriu as portas para um carreira em toda e Europa e América. Sem dúvida um dos maiores violinistas de seu tempo, Sivori compositor é uma somatória do Sivori intérprete.
Obras em formas livres, normalmente baseadas em temas conhecidos de óperas, foram um gênero quintessencialmente romântico. A particularidade desta peça é o virtuosismo demoníaco alternado a um lirismo mais sóbrio, o que reflete, de forma condensada, a ação dramática irônica e trágica da obra de Verdi.
Poulenc: Sexteto
Este sexteto é uma das obras mais fortes de Poulenc e nos dá a sensação de revelar mais facetas do compositor do que aquelas às quais estamos habituados. Por sua postura urbana e naturalmente polida, Poulenc sempre gera a expectativa de uma música ágil e bem estruturada como os clássicos, mas propositadamente coloquial ou até frívola, sempre a um passo da paródia. Porém, nos anos 30, ele passou por uma crise pessoal, que se refletiu num retorno ao Catolicismo e gerou uma série de obras sacras, o que levou o crítico Claude Rostand a dizer que ele era “meio monge, meio moleque”.
O Sexteto, composto entre 1930 e 32 e revisto em 39, é, na superfície, um grande divertimento. Mas aqui Poulenc entrelaça, frequentemente numa única frase, uma gama de sensações de humor, brincadeira, heroísmo, nostalgia e lirismo sombrio. Dois traços são marcantes: primeiro, as seções contrastantes, fortemente demarcadas, nos três movimentos. E segundo, a escrita democrática, que concede a todos os instrumentos passagens de enorme brilhantismo e variedade de expressão em toda a tessitura.
Fábio Zanon é violonista e professor da Royal Academy London
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