23 de junho
Luís Carlos Justi
Heitor Villa-Lobos escreveu seu Canto do Cisne Negro no Rio de Janeiro do Cine Odeon, onde tocava Ernesto Nazareth. Não se pode excluir aqui (neste excerto do poema sinfônico escrito em 1916, “Naufrágio de Kleônicos” ), a influência de outro francês, Saint-Saëns que, no “Carnaval dos Animais” de 1886, também dedica ao cisne o violoncelo.
Louis Spohr (nascido em 1784 em Braunschweig) foi compositor prolífico e violinista de sucesso, considerado junto com Paganini, um dos grandes intérpretes de seu tempo. É considerado um dos mais representativos compositores do romantismo alemão. Quando chegou à Viena em 1813, recebeu uma encomenda do mesmo violinista para quem Haydn tinha escrito, 25 anos antes, doze quartetos de cordas. Para Johann Tost, esse violinista, Spohr escreveu o Nonetto em Fá Maior. Isto explica o fato dessa obra dar papel tão preponderante ao violino, como podemos notar, sobretudo, no Trio em ré menor do Scherzo.
Carl Reinecke nasceu em Altona, Alemanha, em 1824. Pianista, Reinecke foi regente da Orquestra Gewandhaus de Leipzig (a mesma que teve à sua frente, por longo período, nosso conhecido maestro Kurt Masur) e era professor de piano no conservatório local. Era conhecido pelas suas interpretações de Mozart, mas dedicou-se também às obras de Chopin e Schumann. Deste último, assim como de Brahms, percebe-se claramente a influência em seu Trio Opus 188 em lá menor para piano, oboé e trompa. No primeiro movimento, Allegro moderato, uma tranquila nostalgia é anunciada pelo oboé logo no primeiro motivo. O Scherzo aproveita bem as características de emissão de som dos instrumentos de sopro em motivos rítmicos que tornam o movimento menos virtuosístico que tranquilamente alegre. O Adagio é de uma beleza indescritível e parece ser, de certa forma, uma homenagem ao Beethoven da sétima sinfonia. Exige muito dos intérpretes de sopro no que se refere à respiração. O Finale dá ao piano um papel preponderante. Subitamente antes do final, uma lembrança do adágio na voz da trompa, logo é “travessamente” perturbada pelo oboé, trazendo de volta a alegria inicial e finalizando com um espírito positivo, em tom maior.
Ludwig van Beethoven escreveu sua Sonata Opus 24 em Fá maior para violino e piano (pela primeira vez em quatro movimentos) em 1801, mas ela é baseada em anotações de 1794/95, portanto, bastante mozarteana. O epíteto “Primavera” foi dado depois da sua morte, mas não deixa de fazer justiça à alegria primaveril num autor que ficaria conhecido mais pelas tempestades de sua luta contra o destino. O primeiro tema, bastante conhecido, e apresentado primeiramente pelo violino, é leve e de caráter tranquilo. O segundo tempo é uma canção, lembrando Mozart, cantada por ambos os instrumentos. No Scherzo pode-se ter uma boa ideia do humor em Beethoven, sobretudo no Trio. O Allegro ma non troppo final, baseia-se num tema de Mozart da “Clemência de Tito” e nos mostra um Beethoven livre de preocupações existenciais maiores, espontâneo e bem humorado.
Luís Carlos Justi é integrante do Quinteto Villa-Lobos e professor da UNIRIO
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